Diário de Trilhas

Por Marcus Morais

Museu do Açude

sábado, 16 de janeiro de 2010

INTRODUÇÃO

Foto 1: piscina natural próxima ao Alto do Mesquita

Começo esta coluna falando de uma trilha localizada na Floresta da Tijuca, região da qual sou muito suspeito para qualquer comentário. Sua história me fascina, desde sua destruição, para dar lugar a cafezais, passando pelo seu reflorestamento feito pelo Major Archer e mais seis escravos, ainda no século XIX, bem como seus períodos de abandono e de revitalização, até chegar aos dias de hoje, com esta jóia verde em plena cidade do Rio de Janeiro nos permitindo desde uma simples caminhada respirando um ar puro, ao som dos animais e do burburinho dos rios e riachos. Sem contar as cachoeiras, grutas, locais para rapel, picos, mirantes, etc.

Mas a Floresta da Tijuca tem mais. E a trilha de hoje nos leva a um museu localizado em plena floresta. Estou falando do Museu do Açude.

O MUSEU

Fotos 2 e 3: Museu do Açude

O Museu do Açude foi inaugurado em 1964 com o objetivo de integração entre o patrimônio cultural e natural.

Nele encontramos uma rica coleção de azulejaria - painéis franceses, holandeses, espanhóis e, sobretudo, portugueses dos séculos XVII ao XIX - e louça do Porto, tipo de faiança ornamental, fabricada a partir do século XIX em Portugal, além de louças da Companhia das Índias (chinesa) e exemplares raros de escultura chinesa, indiana e indochinesa, bem como de porcelanas de procedências diversas. As artes aplicadas estão igualmente representadas por expressivo conjunto de mobiliário luso-brasileiro, prataria de origem brasileira, portuguesa, inglesa e francesa e por cristais franceses.

Desde 1999 o Museu passou a abrigar Instalações Permanentes, fruto de projeto cultural inédito, à época, de se transformar grandes espaços públicos em museus a céu aberto. Com isto, ganhamos a oportunidade de ver (e interagir) com obras de artistas contemporâneos como Helio Oiticica, Lygia Pape, Nuno Ramos, dentre outros.

Mas de quem foi a concepção deste Museu?

CASTRO MAYA

Foto 4: Castro Maya

Raymundo Ottoni de Castro Maya (1894-1968), que era bacharel em Direito, foi um empresário muito bem sucedido, além de esportista e incentivador dos esportes, um dos pioneiros da preocupação ecológica, editor de livros, colecionador, fundador de museus e sociedades culturais e defensor do patrimônio histórico, artístico e natural.

Homem de cultura bem refinada, Castro Maya dedicou-se a vários projetos culturais e, dentro do nosso tema, a sua maior contribuição foi como administrador da Floresta da Tijuca entre os anos de 1943 e 1947, único cargo público que exerceu e que, para tal, fez apenas uma exigência: receber apenas um salário simbólico de Cr$1,00 (Um Cruzeiro). Assim feito, ele deu à Floresta um embelezamento e uma utilidade de local de lazer e atividades diversas junto à bela natureza, refeita com a ação dos esforços de alguns homens e pela ação do tempo. O trabalho de Castro Maya não foi nada fácil também, a situação da Floresta estava precária, com estradas intransitáveis, casas caindo aos pedaços, trilhas totalmente cobertas pelo mato. Mas, ao final de sua gestão, as alamedas e os sítios pitorescos da Floresta que viviam quase desertos, onde mesmo aos domingos não se contava mais de uma centena de visitantes, só aos domingos e feriados o parque passou a ter uma afluência de mais de 5000 pessoas.

A casa onde se encontra o Museu foi herança de seu pai, o engenheiro Raymundo de Castro Maya - homem culto, pessoalmente convidado por D. Pedro II para ser preceptor de seus netos, e renomado técnico da Estrada de Ferro D. Pedro II (conhecida como Central do Brasil).

Para saber mais sobre o Museu e sobre Castro Maya, visite o site dos “Museus Castro Maya” (ele era proprietário de outro museu, também aberto à visitação, localizado no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro): http://www.museuscastromaya.com.br

A TRILHA

Foto 5: início do Caminho do Leopoldo

Primeiramente, é necessário informar que se pode chegar ao Museu do Açude de carro, porém, para que facilitar se podemos complicar? rsss

Bem, para os que curtem uma trilha (como nós!), existem basicamente dois acessos ao Museu por trilhas pela floresta. Um dos acessos é pelo Morro do Visconde (517 mts) e o outro pelo Morro do Almeida, onde chegamos pelo Caminho do Leopoldo (um dos seis escravos que trabalharam no reflorestamento) ou pela trilha que começa em frente ao Caminho da Cova da Onça..

Muitas das vezes, esta trilha é feita partindo de próximo ao portão de entrada da Floresta e seguindo logo a seguir pelo Morro do Visconde, até alcançar o Museu, e depois retornando por esta mesma trilha. Ainda há a opção de, após o Museu, seguir subindo em direção ao Alto do Cruzeiro, e descer até a Capela Mayrink pelo Caminho do Leopoldo, descendo então até o início (portão de entrada).

Esta direção exposta acima já pode configurar a trilha com grau de dificuldade física não tão fácil quanto na direção oposta, pois haverão dois pontos de subida bem íngremes (acesso ao Morro do Visconde e acesso ao Alto do Cruzeiro). A escolha da direção pode variar de acordo com o grupo que está indo para esta deliciosa caminhada. Nas últimas duas vezes que fiz esta trilha, fizemos o inverso, ou seja, subimos até a Capela Mayrink e depois continuamos a subir até o Alto do Cruzeiro. A questão aqui é que a subida é mais gradativa, menos íngreme, da mesma forma até o Alto do Cruzeiro. Depois descemos até o Museu, e prosseguimos em direção ao Morro do Visconde, pois assim, ao invés de pegar um trecho que é bastante íngreme logo no início, com o “corpo frio” ainda, o utilizamos apenas para descida. Desta forma, já se pode classificar a trilha com um nível de dificuldade mais fácil (lembrando que a conceituação de dificuldade física se torna subjetiva, pois cada pessoa possui um ritmo e condicionamento físico).

Agora vou comentar trecho a trecho desta trilha:

1 – PORTÃO DE ENTRADA / CAPELA MAYRINK

Foto 6: Cascatinha Taunay

Pouco após entrarmos na Floresta, pegamos uma trilha que em 4 min nos leva ao estacionamento em frente à famosa e bela Cascatinha Taunay (Fotos 6 e 9), não conhecida por grandiosidade, mas por graciosidade. Paramos para admirar e fotografar esta beleza da natureza. Nesta área encontramos banheiros e uma pequena loja de souvenirs, além do Restaurante Cascatinha. Ao contrário do que muitos pensam, a antiga casa construída em 1817 pelo pintor francês Nicolas Antoine Taunay, que veio para o Brasil no ano anterior como membro da Missão Artística Francesa, não foi construída na área do atual Restaurante, mas sim na área da referida lojinha e dos banheiros. Outro fato a se esclarecer é de que não foi Taunay quem “descobriu” a Cascatinha, pois o mesmo, antes mesmo de ali morar, já havia pintado um quadro mostrando uma pequena ponte no mesmo local onde várias décadas depois foi construída a, ainda existente, Ponte Job de Alcântara (1860). Portanto, já existia uma ponte que servia como acesso aos sítios que se localizavam acima da Cascatinha, o que Taunay fez foi ser pioneiro naquela área, construindo uma casa, e colocando em evidência a Cascatinha, antes encoberta pela vegetação, daí a mesma recebeu seu nome como homenagem.

Prosseguimos em direção ao local conhecido como Playground. Para tanto, mais uma trilha de 5 min, esta mais larga, pois servia no século XIX como via de escoamento da produção de café, e ligava a Fazenda do Conde Gestas à dos Taunay, esta última justamente na área da Cascatinha.

Saímos da trilha e andamos alguns minutinhos no asfalto até o reservatório da CEDAE. Logo adiante, alguns poços naturais, mas onde o banho é terminantemente proibido, pois suas águas servem para consumo. Chegamos então ao Playground, local onde há área de lazer, com brinquedo, churrasqueiras, bancos, banheiros, estacionamento e um longo banco com assento e encosto revestidos de cacos de azulejos, construído entre 1943 e 1945. Uma escadaria de granito, oriunda do paisagista francês Glaziou, leva à Fonte dos Mayrink, tanque em mármore carrara, com azulejaria portuguesa acima.

Bem próximo se encontra a Capela Mayrink (Foto 7). Toda essa área é também conhecida como Alto do Mesquita, e, inicialmente, pertencia ao Visconde de Asseca, que depois vendeu para o Conde Gestas e, em 1835, foi adquirida pelo Visconde Alves de Souto que em 1850 construiu uma pequena capela às margens do rio. Em 1860 foi vendida ao Conde de Bonfim, pai do Barão de Mesquita, que reconstruiu a capela, dando-lhe uma versão neoclássica com aspecto de casa romana. Essa propriedade foi depois vendida ao Conselheiro Mayrink, personagem famoso do império e também da república. Mayrink reformou a capela que, a partir daí, passou a ser conhecida pelo seu nome. Na década de 1930 a capela estava em péssimo estado, quase arruinada, quando uma campanha pela imprensa conseguiu fazer a Prefeitura do Distrito Federal (Rio de Janeiro) realizar obras a restaurando, sendo então reaberta em 1938, recebendo novamente N. Sra. do Carmo como padroeira (ao longo do tempo mudou de padroeira). Em 1944 mais reformas e reinauguração, recebendo as estátuas que se encontram à frente da capela, que vieram da igreja do Bom Jesus, demolida por ocasião das obras de abertura da Av. Presidente Vargas. Recebeu também telas de Cândido Portinari e jardins decorativos projetados pelo paisagista Roberto Burle Marx. Atualmente na capela se encontram apenas réplicas das telas de Portinari, uma vez que os originais estão sob custódia do Museu Nacional de Belas Artes.

2 – CAPELA MAYRINK / ALTO DO CRUZEIRO

Foto 7: Capela Mayrink

A partir daqui é que começa a trilha propriamente dita. Iniciamos o Caminho do Leopoldo, que em seu início se apresenta com uma subida um pouco mais íngreme, por cerca de 10 min e com áreas com menos cobertura vegetal, não sendo raro receber sol diretamente sobre nós. Depois a trilha toma um caminho mais plano e a mata fica mais densa, não recebendo mais sol diretamente, e, cerca de 5 min depois chegamos a uma bifurcação, onde um pouco antes se encontram as Ruínas da Casa do Colono, antiga construção do século XIX. A trilha que vem da direita é um outro acesso ao Alto do Cruzeiro, proveniente do Caminho da Cova da Onça.

Prosseguimos então pelo Morro do Almeida, em direção ao Alto do Cruzeiro, e mais 15 min de trilha com leve inclinação e fechada, alcançamos o Cruzeiro das Almas (Foto 8), localizado à 525 metros de altitude em terras que um dia foram parte da Fazenda de Francisco Fernandes da Silva. O Cruzeiro foi levantado na década de 1850, e era visível de qualquer ponto do Alto da Boa Vista, já que o reflorestamento do Major Archer sequer havia começado, estando as encostas tomadas por cafezais, muito mais baixos que as atuais árvores de mata atlântica, o que torna a visita atualmente algo impressionante pelo fato de se imaginar como aquele lugar hiper escondido na mata podia ser visualizado daquela forma. Tudo graças ao maravilhoso reflorestamento!

Ainda sobre o Alto do Cruzeiro, em todas as datas festivas de cunho religioso reuniam-se à volta do Cruzeiro das Almas fazendeiros, empregados livres e escravos das propriedades da região. Ali eram rezadas as missas públicas da Tijuca. Atualmente encontramos o Cruzeiro e uma mesa de concreto e base de ferro.

3 – ALTO DO CRUZEIRO / MUSEU DO AÇUDE

Foto 8: Cruzeiro das Almas

Prosseguimos, só que agora descendo um grande “zigue-zague”, morro abaixo, por cerca de 20 min, até sairmos nos fundos do Museu do Açude, onde, ainda na trilha, avistamos e subimos na “Passarela” (Foto 10), uma instalação permanente do artista Eduardo Coimbra que consiste justamente numa passarela de madeira que nos leva até um mirante que envolve uma grande espécie de Eucalipto. Dali, possuímos um grande visual  (Foto 11) onde podemos ver uma parte da Pedra da Gávea, bem como o morro conhecido como Agulhinha da Gávea. Bem legal!

Seguimos mais um pouco e nos deparamos com uma grandiosa e colorida obra (penetrável) do artista Hélio Oiticica (Foto 12). Um pouco mais abaixo, outra obra, desta vez de Lygia Pape (Foto 13).

Descemos e chegamos na primeira parte do Museu, que possui algumas obras em louças, azulejaria, etc.

O Museu do Açude cobra, atualmente, R$ 2,00, mesmo pela visitação externa, ainda que a origem tenha sido pela trilha, como em nosso caso. Com isso ganhamos um ingresso para poder entrar no Museu propriamente dito, que era a casa de Castro Maya, onde as características da época foram preservadas e onde podemos ver várias obras de arte, como citadas no início deste artigo, além de uma cozinha equipada com um luxuoso fogão à lenha, rss. Muitos outros objetos e obras interessantes e bonitas existem dentro do Museu, mas como não é permitido fotografar em seu interior, não há nenhuma foto aqui. E vale a pena conhecer!

Nos fundos de um prédio anexo (Foto 15) ao Museu podemos utilizar banheiros, que da última vez que fui estavam super limpos e com papel toalha de ótima qualidade.

Antigamente existia uma mini-lanchonete no local, mas atualmente não mais. Portanto, não descuide de sua alimentação para esta trilha.

Visitamos os jardins do Museu, bem como a área da piscina, onde se encontra uma obra de Iole de Freitas dentro da mesma.

Nos fundos, onde antigamente funcionava uma mini-horta, outra instalação permanente, de Piotr Uklanski, denominada “Garota de Ipanema” (Foto 17).

Muitas outras obras e objetos de arte são encontradas nos jardins do Museu, relaxe e aproveite o clima ameno, gostoso, a tranqüilidade e a beleza do local e relaxe.

Seguindo pela direção oposta à que viemos, passamos pela recém extinta estufa, que possui uma antiga fonte revestida com azulejaria (Foto 20), e pouco depois mais instalações permanentes, incluindo uma de Nuno Ramos (Foto 19). Chegamos então à uma bela fonte, que possui um banco em frente, todo revestido de azulejos. É neste ponto que retornamos às nossas tão queridas trilhas.

4 – MUSEU DO AÇUDE / MIRANTE DA CASCATINHA

Foto 9: Cascatinha Taunay vista

do Mirante da Cascatinha

Começamos a subir em trilha bem agradável, com mata fechada, mas que possui inclinação constante, sempre subindo, com alguns pontos de maior inclinação. Isso dura cerca de 25 min, até chegarmos à uma bifurcação. A partir daí vamos em direção ao Morro do Visconde, sempre subindo também, mas uma subida bem tranqüila, suave, e agora já com alguns pontos em que o sol aparece mais. Mais 10 min de caminhada chegamos ao cume do Morro do Visconde, que um pouco abaixo possui um belo mirante, chamado de Mirante da Cascatinha, pois dele possuímos uma privilegiada vista da Cascatinha Taunay de cima, com uma infinidade de belíssimas encostas esverdeadas ao fundo (Foto 21).

O Mirante da Cascatinha é o último atrativo desta rica, bela e deliciosa trilha. A partir dele descemos por cerca de 20 min uma trilha muito íngreme, onde se exige bem mais das pernas e joelhos, que nos leva até próximo ao portão de entrada da Floresta, onde iniciamos nosso maravilhoso passeio, rápido, fácil, mas muitíssimo rico cultural e ecologicamente.

Um grande abraço a todos, feliz 2010 e ótimas trilhas!!! Até a próxima!

OBS: Este artigo não deve ser utilizado de forma alguma como guia para se fazer qualquer trilha, pois não possui todas as informações necessárias para tal, bem como é sempre recomendado que qualquer trilha seja SOMENTE realizada com guias especializados em caminhadas ecológicas e que tenham conhecimento do trajeto.

Trilhas são caminhos dinâmicos, que sofrem alterações durante o tempo, portanto, não se arrisque e respeite sempre seus limites e os dos outros do grupo.

OBS: Todas as fotos, com exceção da número 4, cuja fonte foi o site dos “Museus Castro Maya”, são do arquivo pessoal do autor.

Sequência das fotos em miniatura:

Foto 10: “Passarela”, obra de Eduardo Coimbra

Foto 11: Vista do mirante da “Passarela”

Foto 12: “Magic Square n.º 5 - De Luxe”, obra de Hélio Oiticica

Foto 13: “New House”, obra de Lygia Pape

Foto 14: Fonte na área externa do Museu do Açude

Foto 15: Jardins do Museu do Açude

Foto 16: Peça do acervo do Museu localizada na área externa

Foto 17: “Garota de Ipanema”, obra de Piotr Uklanski

Foto 18: Área externa do Museu

Foto 19: “Calado”, obra de Nuno Ramos

Foto 20: Antiga fonte em azulejos na recém extinta estufa

Foto 21:Belíssimo visual do Mirante da Cascatinha

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